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VINHOS NO MAR AZUL é eleito o terceiro melhor livro sobre vinhos em Paris...


Notícia enviada em: 22/02/2010

Entre 26 mil concorrentes de 136 países em várias categorias, o livro Vinhos no mar azul – Viagens enogastronômicas, do jornalista José Guilherme Rodrigues Ferreira, editado pela Terceiro Nome, foi escolhido o terceiro melhor livro do mundo na categoria “Wine Literature”, no concurso Gourmand World Cookbook Awards, considerado uma espécie de Oscar dos livros de vinhos e gastronomia. A cerimônia de premiação foi realizada na quinta-feira, 11 de fevereiro, em Paris, e nove livros brasileiros ficaram entre os finalistas.

Em primeiro e segundo lugares na categoria “wine literature” ficaram os livros Oz and James Drink to Britain (Oz Clarke & James MayPavilion), do Reino Unido, e A Pint of Plain – Tradition, Change and the Fate of the Irish Pub (Bill BarichWalker), da Irlanda, respectivamente.

Vinhos no mar azul reúne 50 crônicas que transitam em território onde vinho e cultura se encontram. “A abordagem multifacetada, estabelecendo conexões hedonistas do vinho com outras artes, com a geografia, com a história, com as religiões, com a literatura e a ciência, deve ter pesado na escolha dos jurados”, diz o autor. Ele destaca ainda a qualidade gráfica e editorial da publicação, enriquecida com gravuras de George Rembrandt Gutlich e projeto gráfico de Carlos Magno da Silveira.

Edouard Cointreau, presidente do prêmio e da Paris Cookbook Fair, que abrigou o evento de premiação, saudou a qualidade e o bom humor dos textos de Vinhos no mar azul.

Manuel da Costa Pinto, jornalista e crítico literário, escreveu na apresentação da obra: “Os bons escritores sabem como a aparente liberdade de estilo é conquistada graças à lapidação minuciosa e ao cálculo. Da mesma maneira, os verdadeiros apreciadores dos prazeres da boa mesa são aqueles que exercem controle sobre a volúpia, disciplinam a dissipação – não por ascetismo, mas para prolongar o prazer. Tais qualidades estão presentes na escrita de Vinhos no Mar Azul – na assemblage que faz com que esse livro apresente equilibradamente humor e informação, meditação e memória, contenção e lirismo”.

Para o escritor Luiz Ruffato, “trata-se de um livro de gênero inclassificável, que tematiza um assunto banalizado pela cultura de massa de uma maneira nova, ao mesmo tempo culta e elegante, simples e sofisticada...”.



Trechos do livro

Estrelas barrocas
Sedução e fraternidade no Champagne

Ao associar o Champagne a um monge, Grossard teria conseguido livrar a bebida do pecado da frivolidade aristocrática, mas certamente não se deu bem ao tentar espantar hedonismos. Hoje as bolhas são cultivadas, revelam uma cultura do vinho elevada ao quadrado. Para Onfray, são retratos da onipotência do artifício. E, presentes em outros espumantes ao redor do planeta, como nos dignos brasileiros, estão relacionadas à alegria, ao enlevo, à sedução. O Champagne acompanha em garrafas vulcânicas as comemorações de pilotos voadores da Fórmula 1; dispara cometas para noites acesas e etéreas dos apaixonados; o único vinho que realmente canta, com suas bolhas efêmeras, a passagem do tempo.

Recreio dos mosqueteiros
A vida através de um copo de Chambertin

Porthos, Aramis, Athos e D’Artagnan acabam de se safar de mais uma encrenca. E agora estão à mesa farta, com bons vinhos, numa inevitável algazarra. Os estalajadeiros de uma França em pé de guerra com a Inglaterra não podem se queixar de tédio quando os clientes são os mosqueteiros de monsieur de Tréville, que dão a vida pelo fraco rei Luís XIII e nutrem certa rixa pelo habilidoso e influente cardeal Richelieu, l’Eminence Rouge, e seus asseclas. Os personagens de Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas (1802-1870), entre um duelo, uma amante, uma milady, um conde de Rochefort e um cerco à Rochelle, sempre se animam com garrafas de Borgonha, Bordeaux, Champagne e de revigorantes vinhos da Espanha aditivos que ligam os quatro mosqueteiros em amizade acima das diferenças de gênio e pensamento.

Ninhos de Santorini
Refrescantes brancos em clima de vulcão

Em vários pontos da Santorini que acolheu todas essas populações, com suas casas e seus templos, as uvas nascem em rústicos ninhos. Para protegê-las do vento forte que sopra do norte, o familiar Meltemi, agricultores trançam os galhos de suas parreiras rente ao chão. Aproveitando esse manejo, as frutas parecem acarinhar o solo árido, implorando por mineralidades únicas. Terraços com videiras, entre pistaches, favas e figos, se espalham pelas várias vilas da ilha, tendo Pyrgos como centro. Há poucos anos, Santorini era também fonte de pequeninos e especiais tomates, matéria-prima de cobiçados extratos e garantia de um keftedes local com mais sabor ainda.

Metáforas de um romancista
Ah! O Finnegans Wake do meu Trockenbeerenauslese

Se alguém pedir para Jay McInerney explicar por que seu vinho branco favorito é o Condrieu, preparado a conta-gotas com a uva viogner que nasce nas alturas de uma colina às margens do Rhÿne, ele primeiro vai dizer que é porque o Condrieu evoca as pinturas que Gauguin fez no Taiti. Para depois emendar que esse vinho tem duas qualidades que os grandes brancos precisam ter: acidez e habilidade de ficar melhor com os anos. Mas por que não um Riesling ou um Borgonha de Meursault ou Puligny-Montrachet nos quais essas qualidades são evidentes? Amor não é baseado em considerações práticas. Condrieu é um vinho para românticos.

Tertúlias em Oxford
Brindes de Gilberto Freyre a Anglos e Anjos

A empreitada nos sebos de Londres é descrita por Gilberto Freyre no pequeno livro Ingleses, de 1942. O antropólogo e sociólogo que interpretou o Brasil e traçou um polêmico perfil da sociedade patriarcal brasileira em Casa Grande & Senzala, também reuniu impressões sobre o comportamento dos ingleses, esses anglos às vezes anjos, colocando tintas em pequenas conexões e detalhes. A curta mas intensa temporada de Freyre em Oxford, regada a muito vinho do Porto e tertúlias universitárias, abriu os olhos do estudante tanto para os poetas românticos ingleses como para a personalidade intrincada desses ilhéus, capazes de gerar homens-súmulas da humanidade.




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